Percepção comum em debates políticos: a ideia de que, quando um grupo político está em crise, cria narrativas para desviar a atenção dos problemas. Mas vale lembrar que esse recurso não é exclusivo da esquerda — a direita também faz uso de “cortinas de fumaça” ou narrativas estratégicas sempre que se vê pressionada.
Na prática, isso faz parte do chamado jogo político de agenda: quem controla o tema em pauta consegue reduzir o impacto de erros e fragilidades. É algo estudado em ciência política como “agenda setting” e “framing”.
exemplos históricos no Brasil (tanto da esquerda quanto da direita);
como funciona esse mecanismo de comunicação política.
Exemplos da esquerda
Mensalão (2005 – Governo Lula)
Quando o escândalo veio à tona, o PT e aliados tentaram inicialmente enquadrar como uma “crise de caixa dois” de campanha, reduzindo a gravidade do esquema. Ao mesmo tempo, reforçavam a narrativa de que “as elites” e “a mídia golpista” queriam derrubar o governo.
Crise econômica (2014-2016 – Governo Dilma)
Durante a recessão e aumento do desemprego, o governo insistia na narrativa de que os problemas eram fruto de fatores externos (crise internacional, queda das commodities), tentando minimizar a responsabilidade da política interna.
CPMI do MST (2023 – Governo Lula 3)
Com a instalação da comissão, setores da esquerda passaram a dizer que havia uma “criminalização dos movimentos sociais” e que o foco da oposição era desviar de pautas econômicas.
Exemplos da direita
Crise da Amazônia (2019 – Governo Bolsonaro)
Com queimadas em alta repercussão internacional, a narrativa foi de que ONGs e atores estrangeiros estariam “fabricando” a crise para prejudicar o Brasil, desviando do debate sobre políticas ambientais.
Pandemia da Covid-19 (2020-2021)
Diante das críticas à condução da crise sanitária, a narrativa usada foi de que governadores e prefeitos estavam superfaturando respiradores e hospitais de campanha, transferindo a atenção da responsabilidade federal para os estados.
Escândalos de joias da Arábia Saudita (2023 – Bolsonaro)
Parte da narrativa foi de que se tratava de perseguição política e que as joias eram “presentes protocolares”, tentando enquadrar como algo menor para reduzir impacto.
Ou seja, tanto esquerda quanto direita usam esse expediente. É parte da disputa por quem controla o enredo político.]
Exemplo:
Escândalo real
Narrativa usada para desviar
Se funcionou ou não?
Quadro comparativo – Narrativas políticas no Brasil
Campo político Escândalo/Crise Narrativa usada Funcionou?
Esquerda (PT – 2005) Mensalão – compra de apoio parlamentar Chamado de “caixa dois” de campanha; acusação de perseguição da mídia e elites. Não funcionou – vários condenados e imagem do governo arranhada, apesar de Lula manter popularidade.
Esquerda (PT – 2014-2016) Crise econômica – inflação, desemprego, queda do PIB Responsabilidade atribuída à crise internacional e “pauta-bomba” do Congresso. Parcial – narrativa não convenceu a maioria; desgaste levou ao impeachment de Dilma.
Esquerda (Lula 3 – 2023) CPMI do MST Discurso de “criminalização de movimentos sociais” e acusação de perseguição da oposição. Parcial – narrativa manteve base social fiel, mas não eliminou críticas.
Direita (Bolsonaro – 2019) Queimadas na Amazônia ONGs e países estrangeiros estariam inventando crise para prejudicar o Brasil.rmente, parte da base acreditou.
Direita (Bolsonaro – 2020-21) Covid-19 – alta mortalidade, falhas na gestão Responsabilidade jogada em governadores e prefeitos; discurso de corrupção nos estados. Parcial – base bolsonarista aceitou; maioria da opinião pública responsabilizou governo federal.
Direita (Bolsonaro – 2023) Joias da Arábia Saudita Narrativa de que eram presentes protocolares, acusação de perseguição política. Não funcionou – investigação avançou e caso virou símbolo de escândalo.
Resumo:
Narrativas podem segurar a base fiel, mas raramente convencem a maioria quando o escândalo é grave.
Exemplo direita: Bolsonaro Tenta se exilar na Argentina.
Lula: Tenta obstruir CPMI do INSS
Tanto esquerda quanto direita usam “cortina de fumaça” como estratégia.