'Quem cotidianamente utiliza as redes sociais muito provavelmente já se deparou com memes de pessoas negras banguelas sorrindo, que têm como intuito o humor'
Para quem observa minimamente a política partidária, não é novidade: o PT, por muitos anos, não estimulou nem apoiou mulheres negras a se candidatarem
Hoje, quero falar sobre as mulheres negras na política de Minas Gerais. E falo do lugar que me atravessa: sou belorizontina, preta, militante do movimento de mulheres negras, com 41 anos de idade e uma história que me faz votar com o corpo inteiro.
Então vamos lá. Era 13 de agosto de 1983 quando Lélia Gonzalez escreveu, nas páginas da Folha de S. Paulo, um artigo corajoso. Ali, ela denunciava o silêncio ensurdecedor do PT em seu programa de TV, exibido em rede nacional, que simplesmente ignorava a questão racial. Dez temas foram tratados — nenhum deles era o racismo. Lélia chamou o que viu de “racismo por omissão”, uma das faces mais perversas da ideologia do branqueamento. Quarenta anos depois, eu, uma mulher preta na plateia dos comícios petistas para eleger Lula à presidência em Belo Horizonte, assistia ao mesmo filme: apenas vozes brancas ao microfone. E, quando uma mulher negra aparecia, era figurante — no fundo do palco, quase fora de foco. Dava a sensação de que o tempo passou, mas a estrutura permaneceu intacta.~