

A democracia brasileira, apesar de suas imperfeições, está assentada sobre um princípio claro e inegociável: o poder emana do povo e não pode ser tratado como herança familiar. Por isso, causa inquietação qualquer discurso que, ainda que revestido de linguagem democrática, condicione a escolha de um candidato à Presidência da República à sua pertença a um determinado núcleo familiar.
A recente defesa, por filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, de que o nome à disputa presidencial seja escolhido “democraticamente”, desde que seja um dos próprios filhos, expõe uma contradição evidente. A democracia não comporta cercas invisíveis nem critérios de sangue. Ela vive exatamente da pluralidade, da diversidade de ideias e da livre concorrência entre projetos políticos.
Ao longo da história, o Brasil já enfrentou diferentes tentativas de concentração de poder: oligárquicas, militares, econômicas e ideológicas. Em todas elas, o prejuízo maior recaiu sobre a sociedade, que viu o debate público empobrecido e as instituições ameaçadas. Quando uma candidatura nasce limitada por vínculos familiares, o processo deixa de representar o interesse coletivo e passa a atender a uma lógica de continuidade privada do poder.
Não se trata de negar a ninguém o direito de disputar eleições. Este é um direito constitucional. No entanto, é preciso distinguir direito individual de imposição simbólica ou política. Num regime verdadeiramente democrático, nenhum sobrenome deve ser apresentado como “naturalmente legítimo” ou “inevitável”. A legitimidade não vem de um nome, mas da vontade ampla, livre e soberana do eleitorado.
A posição do grupo Mídia Livre ao não concordar com essa ideia aponta justamente para essa linha de defesa institucional: a política não deve ser um projeto familiar. Não por rivalidade, mas por princípio.
O Brasil não precisa de herdeiros políticos. Precisa de propostas, de compromisso com a Constituição, de respeito às instituições e de líderes que compreendam que o cargo público é serviço — e não patrimônio.
Qualquer projeto que comece limitando a escolha já nasce distanciado da essência democrática. E toda democracia enfraquecida começa assim: não com grandes rupturas, mas com pequenas concessões ao autoritarismo disfarçadas de normalidade.