

Quando o mandato vira palanque para a maconha
O deputado estadual Renato Freitas (PT-PR) voltou ao centro dos holofotes — não por um grande projeto de impacto social, mas por declarações que, no mínimo, geram desconforto em quem ainda acredita que o Parlamento deve ser um espaço de responsabilidade institucional. Em entrevista ao portal Breeza, o parlamentar se autodeclarou “maconheiro” e anunciou a intenção de criar uma associação para o cultivo de cannabis medicinal com a participação de ex-presidiários.
O tema da cannabis medicinal, por si só, já é complexo e envolve debates sérios no mundo da ciência, da saúde pública e da legislação internacional. Porém, quando o discurso rasga a fronteira da técnica e mergulha na provocação ideológica, o que resta não é um debate responsável — é polêmica calculada.
Freitas foi além. Associou a criminalização da maconha ao racismo estrutural e direcionou críticas à classe média de Curitiba, reforçando o tom de enfrentamento que já virou sua marca registrada. O problema é quando a narrativa deixa de ser instrumento de reflexão e passa a ser plataforma de confronto — ainda mais partindo de um detentor de mandato popular.
Enquanto parte de seus apoiadores aplaude a ousadia, outra parcela da sociedade enxerga nas declarações uma banalização perigosa de temas que exigem seriedade, cautela e, sobretudo, respeito à lei vigente. Não por acaso, o deputado passou a ser alvo do Conselho de Ética da Assembleia Legislativa.
A pergunta que fica não é se a cannabis será descriminalizada no futuro — esse é um debate que pertence ao Congresso Nacional, à ciência e à sociedade. A pergunta é outra, mais básica:
um parlamentar pode usar o cargo para normalizar, politizar e até romantizar aquilo que, hoje, ainda é ilegal?
O Brasil vive um tempo em que a figura do político deixou de ser símbolo de equilíbrio para virar agente de provocação permanente. E, nesse cenário, quem paga o preço geralmente é a própria credibilidade das instituições.
Enquanto isso, entre uma declaração polêmica e outra, o cidadão comum continua esperando o básico: segurança, saúde, educação e respeito.
O resto é fumaça.
Tavinho Sá Leitão – Mídia Livre