

Lula, Trump e a esquerda em curto-circuito
Lula parece determinado a testar, mais uma vez, os limites da própria base. Em alto e bom tom, declarou que “adora Donald Trump” e que foi “amor à primeira vista”. A frase, dita sem rodeios, cai como uma bomba dentro de um campo político que sempre tratou Trump como inimigo simbólico número um.
A pergunta inevitável é: como fica o discurso agora?
E, principalmente, como reage o chamado “gado”, acostumado a enxergar o mundo
em blocos morais bem definidos — nós contra eles, o bem contra o mal?
Durante anos, a esquerda construiu a narrativa de que Trump representava tudo o que havia de mais nocivo à democracia liberal. Ao mesmo tempo, relativizou ou silenciou diante de regimes e grupos que, estes sim, flertam abertamente com o autoritarismo e o terrorismo. O resultado é uma contradição difícil de explicar para quem ainda leva o discurso ideológico ao pé da letra.
Se Trump sempre foi o vilão oficial, o que muda quando Lula
resolve elogiá-lo?
A esquerda acompanha o líder e muda de posição?
Ou entra em parafuso, tentando justificar o injustificável?
Não é a primeira vez que Lula mostra que o pragmatismo fala mais alto que a coerência ideológica. O problema é que a militância nem sempre consegue fazer essa ginástica retórica sem tropeçar nas próprias convicções.
No fim das contas, sobra para a base engolir seco, reinterpretar falas, relativizar princípios — e seguir adiante como se nada tivesse acontecido. Porque, na política brasileira, a fidelidade ao líder quase sempre pesa mais do que qualquer discurso previamente defendido.
Tavinho Sá Leitão
Mídia Livre