

A quarta-feira de apuração não foi apenas um dia de notas. Foi um recado.
A estreia da Acadêmicos de Niterói no Grupo Especial terminou de forma amarga: último lugar e rebaixamento. Um desfecho duro para qualquer escola que pisa pela primeira vez na elite do carnaval carioca. Mas o que torna o episódio ainda mais simbólico foi o enredo escolhido: uma homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Ao longo da apuração, a escola recebeu apenas duas notas 10. O resultado foi técnico. Mas o debate é político.
Carnaval é arte, é cultura, é liberdade criativa. Sempre foi palco de crítica social, de narrativa histórica e de posicionamentos. Isso não está em discussão. O que se questiona é a estratégia.
Ao optar por transformar a avenida em vitrine de exaltação a um presidente em exercício — figura naturalmente polarizadora — a escola assumiu um risco evidente. Em tempos de divisão intensa, qualquer homenagem política deixa de ser apenas artística e passa a ser lida como posicionamento ideológico explícito.
E aí mora o problema.
O carnaval não é neutro, nunca foi. Mas também nunca foi ingênuo. Quando uma escola recém-chegada ao Grupo Especial decide estrear apostando em um enredo que divide o país, ela não está apenas contando uma história — está entrando num campo minado.
O resultado foi apenas técnico? Pode ser. Mas simbolicamente, o recado ecoa: misturar palanque com fantasia pode sair caro.
A avenida consagra quando emociona. Quando vira instrumento de militância explícita, corre o risco de perder o encanto coletivo. E no carnaval, perder o coletivo é perder tudo.
Tavinho Sá Leitao
Mídia Livre