

O Brasil chegou a um ponto em que até líderes religiosos passaram a ocupar o centro das disputas políticas e ideológicas. Agora, surgem acusações contra o padre Júlio Lancellotti envolvendo o possível uso de recursos da paróquia para quitar despesas judiciais pessoais. Se isso for verdade, é grave. Muito grave.
Dinheiro de igreja pertence à missão religiosa, às obras sociais e aos fiéis que ajudam acreditando estar colaborando com a fé e com a caridade — não para custear batalhas pessoais na Justiça. A sociedade tem o direito de exigir transparência, principalmente de figuras públicas que diariamente fazem discursos sobre ética, desigualdade e justiça social.
Mas também é preciso cautela. Acusação não é condenação. Em tempos de polarização extrema, muitos transformam denúncias em sentenças antes mesmo de qualquer investigação séria. O país já viu esse filme várias vezes.
O problema maior é que o Brasil vive uma mistura perigosa entre religião, ativismo político e militância ideológica. Quando líderes religiosos entram no jogo político, inevitavelmente passam a enfrentar o mesmo nível de cobrança e suspeita que qualquer agente público enfrenta.
Se houve irregularidade, que seja investigada. Se não houve, que a verdade apareça rapidamente. O que não pode continuar é essa sensação permanente de que instituições religiosas, políticas e judiciais vivem mergulhadas em disputas onde a confiança da população vai sendo destruída pouco a pouco.
Porque quando até a fé vira motivo de guerra política, quem perde é o povo.