

As mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro e encaminhadas a um contato identificado pela Polícia Federal como sendo de Alexandre de Moraes colocam o país diante de perguntas que não podem ser abafadas.
Segundo documentos da investigação do Banco Master, Vorcaro teria pedido ao ministro que reforçasse, junto ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, uma suposta proteção contra medidas que poderiam atingir o banco e seus dirigentes.
Não estamos falando de uma conversa trivial entre conhecidos. Estamos diante de um banqueiro investigado por suspeitas de uma fraude bilionária procurando uma das autoridades mais poderosas da República justamente quando temia o avanço das investigações.
As mensagens, isoladamente, não representam uma condenação. Também será necessário esclarecer se houve resposta, interferência efetiva ou qualquer medida tomada em benefício de Vorcaro. Mas o conteúdo divulgado é suficientemente grave para exigir uma investigação independente, completa e transparente.
Quando um investigado acredita que pode recorrer diretamente a um ministro do Supremo para pedir ajuda junto às cúpulas da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República, alguma coisa está profundamente errada. Ou Vorcaro imaginava possuir uma influência que não tinha, ou acreditava que a proximidade com autoridades poderia protegê-lo. As duas possibilidades precisam ser esclarecidas.
O país também merece saber se informações sigilosas sobre operações policiais chegaram antecipadamente ao conhecimento do banqueiro. Se isso aconteceu, quem forneceu essas informações? Houve tentativa de impedir ou retardar alguma medida? Alguém utilizou o próprio cargo para favorecer interesses privados?
Essas perguntas não podem ser tratadas como ataques às instituições. Pelo contrário: investigar com seriedade é a única maneira de preservar a credibilidade delas.
O Supremo Tribunal Federal, a PGR e a Polícia Federal não podem exigir transparência dos demais Poderes e, ao mesmo tempo, reagir com silêncio quando as suspeitas alcançam seus próprios integrantes. A lei precisa valer para empresários, políticos, procuradores, policiais e ministros.
Não se pode condenar Alexandre de Moraes antecipadamente. Mas também não se pode transformar sua posição no STF em um escudo contra qualquer apuração. Cargo público não concede imunidade moral nem autoriza tratamento privilegiado.
As mensagens atribuídas a Vorcaro são graves demais para serem arquivadas por conveniência institucional. O Brasil precisa saber toda a verdade: quem pediu proteção, quem recebeu o pedido, se houve resposta e quais providências foram tomadas.
O silêncio, neste caso, não protege o Supremo. Protege apenas a desconfiança.
Tavinho Sá Leitão — Mídia Livre